No auge da caçada minha equipe foi convocada para “voltar pra casa”. Estávamos em uma discussão calorosa sobre as próximas viagens quando entra o capacho do Grandão, me entrega um papel e diz algo assim:
- Carmen, o Grandão teria que participar desse evento semana que vem lá naquele lugar que você morou mas não poderá, então quem vai é você já que ninguém mais fala essa língua. Ele te espera na sala dele para passar mais informações.
E lá fui eu. O tom do discurso do Grandão foi de que ele optou por não ir, mas todos nós sabíamos que era por outro motivo. Tive que me controlar para não dizer: “Este evento é ótimo, é uma pena que seu passaporte esteja sob custódia”.
Viajar para lá foi bom, fiz a parte do Grandão no evento. Estudei no meu lugar predileto da época da escola e aproveitei para rever antigos amigos, contar as novidades da vida. Eles se lembravam dos meus sonhos, recebi incentivo e apoio pelas decisões que tomei, mas o maior incentivo veio de uma música que escutei quando estava no táxi...
Pareceu cena de filme. Eu estava aérea e nostálgica quando entrei no carro, pedi para ele seguir para o aeroporto e afundei no banco. O taxista, vendo as lágrimas que começavam a verter, me perguntou na língua local se poderia colocar uma música de sua terra natal. Era um fado e eu quis pular do carro – eu não merecia aquilo - mas resolvi dar uma chance e lá pelo meio da música ouço “Carmencita, linda graça, renegando a sua raça, foi atrás de um sonho lindo”. Pedi em português para ele fazer o caminho que passava pela minha antiga casa, ele olhou surpreso pelo retrovisor e seguiu. Chorei ainda mais quando vi as ruas que cresci, lembrando-me dos olhos reprovadores do meu pai quando eu dizia para os amigos da escola enquanto bricávamos que um dia eu voltaria para o meu país e iria combater o crime... E naquele dia eu estava voltando com aquele propósito! Indo atrás do meu sonho lindo. Não podia perder aquele voo, em alguns dias eu tinha uma prova.
(não foi desta vez que passei, mas este trimestre marcou o início de uma jornada que só vai acabar quando eu passar)

